Na Cozinha Comunitária Novo Mundo, em Caruaru, o cheiro de comida boa se mistura ao barulho de risadas infantis. Frutas frescas e o leite ganharam o protagonismo na mesa, enquanto mãos pequenas mexem colheres e olhares curiosos descobrem o valor de um alimento saudável. Não é apenas uma oficina de culinária, é um lembrete poderoso de que comer bem é um direito, não um privilégio.
Mais do que celebrar uma data no calendário, Pernambuco transformou a Semana Mundial da Alimentação em uma grande mobilização de afeto, presença e ação concreta. Durante vários dias, municípios, cozinhas comunitárias, gestores públicos, educadores e famílias se uniram para reafirmar um compromisso coletivo: ninguém deve passar fome.
A programação começou no Agreste, com uma panfletagem na Feira de Artesanato de Caruaru, um dos espaços mais movimentados da cidade. Ali, entre barracas de comida, artesanato e muita circulação de pessoas, equipes da Secretaria de Assistência Social, gestores municipais e integrantes do Programa Bom Prato conversaram diretamente com a população sobre o direito à alimentação adequada. Não era um discurso distante: era olho no olho, palavra com palavra, levando informação acessível sobre programas e ações que garantem comida no prato e dignidade na mesa.
Nos dias seguintes, a mobilização chegou à Estação Central do Metrô do Recife, outro ponto de grande fluxo. A escolha do local não foi por acaso: é onde milhares de pessoas passam diariamente, muitas delas em situação de vulnerabilidade social. Panfletos, diálogos e ações educativas ajudaram a disseminar a mensagem de que alimentação saudável é um direito humano fundamental e que há políticas públicas trabalhando para tornar esse direito real. Para Katiuska Lopes, secretária municipal de Assistência Social e Combate à Fome de Caruaru, essa presença no território é transformadora. “É olhar no olho e dizer: você importa, seu prato importa. Quando município e Estado caminham juntos, esse direito deixa de ser só discurso e vira realidade.”
A Semana Mundial da Alimentação também foi marcada por um momento de puro encantamento e aprendizado. Na Oficina Mini Chefes, realizada nas Cozinhas Comunitárias Vila do Aeroporto e Novo Mundo, em Caruaru, as crianças foram as protagonistas de uma atividade divertida e educativa que também celebrou o Dia das Crianças.
A cozinha se transformou em uma sala de aula, um palco para brincadeiras e um espaço de descobertas. Durante a atividade, o cuidado com a alimentação ganhou vida, cor e sabor. As crianças não apenas experimentaram, mas também se envolveram no preparo. Na mistura das frutas com leite, surgiu uma vitamina deliciosa, repleta de sabor, carinho e nutrição. Um gesto simples, mas poderoso, que mostrou que comer bem é também um ato de cuidar de si mesmo. O leite, uma fonte de energia e crescimento, combinado com as frutas, ricas em fibras, vitaminas e antioxidantes, proporcionou uma experiência completa de saúde e descoberta.
A atividade envolveu os filhos e filhas das beneficiárias das cozinhas comunitárias, com o apoio de nutricionistas, educadores sociais e equipes técnicas da SAS. Mais do que cozinhar, elas aprenderam que alimentação saudável é um gesto de cuidado. E para muitas delas, foi também um encontro com novas possibilidades de futuro. Afinal, comida também é cultura, memória e afeto.
Foi nesse ambiente cheio de vida que dona Josenilde Rufino, beneficiária da Cozinha Comunitária Novo Mundo, emocionou a todos ao compartilhar seu sentimento de pertencimento: “É uma bênção, sabe? Pra mim, pra minha colega, pro meu neto e pra todas que estão com a gente. A gente se sente acolhido, cuidado. Porque quando tem carinho, tudo muda. Sem carinho, as coisas não andam. Tem que ter amor, muito amor. Aqui tem história, tem afeto, tem comida boa. Mas, acima de tudo, tem gente.”
O Programa Bom Prato tem sido um dos grandes aliados no enfrentamento à fome em Pernambuco. Mas, como destaca Rafaela Ravana, gestora estadual de Segurança Alimentar e Nutricional, sua força vai além da refeição servida. “Não é só sobre colocar comida no prato. É sobre dar autonomia, ensinar, acolher. É sobre plantar, colher e fazer escolhas conscientes com os recursos que se tem. Alimentar também é educar e isso transforma.” Essas ações mostram que políticas públicas bem articuladas podem gerar mudanças reais e duradouras: melhor nutrição, mais dignidade e oportunidades para quem mais precisa.
Nos últimos anos, Pernambuco vem avançando de forma consistente no enfrentamento à fome. Programas como o Bom Prato, Mães de Pernambuco e Leite Para Todos se somam à geração de empregos e ao fortalecimento da agricultura familiar para criar uma rede de proteção alimentar que chega, de fato, à ponta. Felipe Medeiros, secretário executivo de Combate à Fome, resume bem essa estratégia: “A fome não se combate com ações isoladas. É preciso estratégia, presença nos territórios e escuta. Pernambuco está construindo um pacto coletivo pela dignidade alimentar. Cada cozinha comunitária, cada refeição servida, cada criança aprendendo sobre alimentação saudável é um tijolo nesse projeto.”
A Semana Mundial da Alimentação em Pernambuco não termina quando acaba a programação. Ela se renova a cada prato cheio, a cada família que respira aliviada, a cada criança que aprende brincando que comida boa é direito de todos. Porque enfrentar a fome não é só sobre números, é sobre gente. Gente que planta, que cozinha, que educa. Gente que acredita que dignidade começa com o básico: comida boa, justa e acessível. E quando o Estado e a sociedade se unem, a fome perde força. E a esperança, servida com afeto, prevalece.
Por: Fernando Junior e Rafaela Albuquerque